02/07/2016

Degustação

carta-2

 Destino, destinatário: histórias em cartas (2016)

São Paulo, segunda década do século XXI

Estimado leitor,

Espero que esta carta o encontre em paz e em estado de esperança.

Não preciso lhe dizer que cartas andam meio fora de moda. Algo já antiquado, exceto no Natal, quando muitos se lembram de escrever para um tal Papai Noel, que lá da Lapônia ainda não tem e-mail, redes sociais ou algo assim. Pelo menos é o que se pensa aqui no Brasil.

É claro que escrever uma carta exige acesso ao próprio coração, à própria alma. É preciso que existam também pessoas morando no coração e na alma, cuja presença nos emociona, nos afeta em qualquer sentido. O que liga as palavras à mão é a linha da emoção.

Outro elemento importante: sempre há muito a dizer para quem mora em nós e está distante de algum modo. Por isso, muitas letras são borradas de lágrimas, coloridas de surpresas.

Não se pode ter pressa. Devagar temos a garantia de que o que está escrito é exatamente o que queremos dizer. Fazemos quantos rascunhos achamos necessários. Algumas vezes os rascunhos são carregados de desabafos. Então paramos, lemos e pensamos: é isso mesmo que quero dizer? Essa é a melhor forma de dizer?

Embora existam cartas digitadas e, quem sabe, ainda datilografadas, as escritas à mão são mesmo as que mais gostamos de receber. Quando nos deparamos com um envelope, com nosso nome escrito em uma letra muito familiar, a respiração se acelera por alegria, surpresa ou luto. Quase sentimos a densidade e o perfume do remetente em nossas mãos. […]

CAPA FRONTAL PEQUENA

Memórias.com/ partilhadas: vida, laços, pontos cruzados (2013)

BANDIDO, HERÓI, VÍTIMA

Uma cena constrangedora, cruel. Meu primeiro contato com o peso do preconceito, da discriminação, da dominação sobre os mais frágeis. Em nosso bairro, na zona leste, por essa época as ruas eram tranquilas. Porém, começaram a desaparecer roupas nos varais das casas. Uma blusa aqui, uma calça ali.

Um dia, vejo o suposto ladrão passar em frente ao portão de casa. Um menino negro, dez anos, com uma calça muito larga, arrastado por um homem forte e alto. Ele chorava, suas calças caíam a todo momento, deixando-o totalmente nu; ele sequer tinha cuecas. Um triste desfile da intolerância e indignidade humana rua abaixo.

Desejei que não fosse o menino. Talvez o varal fosse muito alto? Ainda mesmo que fosse o autor dos furtos, fiquei ali pensando. Ele teria mãe? Tão magro, teria se alimentado? As pessoas aplaudiam, sentindo-se vingadas por suas preciosas peças de roupa perdidas.

Quem era o herói, quem era o bandido? O que vi foi apenas um agressor grande e forte e uma vítima frágil, triste, humilhada. Eu era criança, talvez por isso a cena tenha me chocado; eu e o menino nos olhamos. Ele baixou os olhos.

 capa perse

Assista 

 Clave de luz: sons da vida (2014)

CÉLULAS?

Decifram códigos sutis.

Por secretos  labirintos

carregam minha raiz.

Definem  até o que sinto:

fome, saciedade, dor

arrepio, força ou calor.

 

Como nós, se enlouquecem

viram o jogo, arrasadoras

se rebelam, não obedecem,

incontroláveis, destruidoras

 

Quem comanda tal usina

que trabalha em sincronia?

Algum ente lhes ensina

tamanha sabedoria?

 

Seres simples, dirão.

É  química e não mistério.

conquista da evolução,

a partir de algum minério

 

Algumas vezes reflito

Poderão ter  pensamento?

Seria meu corpo,  seu infinito,

Muitos anos, um momento?

 

Ah! Então delas serei  Deus.

Mas se quiserem Me buscar

Por algum instante que seja,

Deixarão de trabalhar

Ficarei fraca e sem defesa.

 

E ao encontrarem Deus

Já estarão condenadas

Pois assim  desordenadas,

Morrem elas, morre Eu.

E no caos clamarão:  HÁ DEUS!

ADEUS…

 

 

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